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Philippe Descola

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Trata-se de uma abordagem recente em antropologia, oferecendo uma perspectiva atual, sem deixar de reconhecer a importância de outras abordagens da tradição antropológica.
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    DESCOLA, Philippe. Além de natureza e cultura. Tessituras , Pelotas, v. 3, n. 1, p. 7-33, jan./jun. 2015.   ALÉM DE NATUREZA E CULTURA 1   Philippe Descola 2   Texto riginal DESCOLA, Philippe. ‘  eyond Nature and Culture’ , Proceedings of the British  Academy, volume 139, pp. 137-155. © British Academy, 2006. Tradução Bruno Ribeiro 3   Um livro básico de antropologia recentemente publicado em Cambridge afirma que “hoje praticamente ninguém na antropologia social afirma ser um seguidor de Radcliffe-Brown ” 4 . Seria hipocrisia se um antropólogo francês com inclinações ao estruturalismo desafiasse esta 1  N.E. Com o intuito de manter o presente texto o mais próximo possível da sua versão srcinal (publicada em 2006 pela British Academy), não adotamos na sua edição as regras de formatação e padronização dos demais textos da revista. Assim, por exemplo, a indicação das fontes e as referências bibliográficas não seguem a ABNT, mas sim o formato da British  Academy. Agradecemos a Loredana Ribeiro e Adriane Rodolpho pelas mediações com o autor, Philippe Descola, e com a British Academy, a quem estendemos nossos agradecimentos pela autorização para publicação do texto em português. 2  Filósofo pela École Normale Supérieure e etnólogo formado pela École Pratique des   Hautes Études.  3  Discente do curso de graduação em Antropologia, linha de formação em Arqueologia, da UFPel; bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) no LEPAARQ-ICH/UFPel. E-mail: brunoleo.ribeiro@gmail.com . 4  Barnard, A. History and Theory in Anthropology (Cambridge, CUP, 2000), p.73.  8 essitur s   DESCOLA, Philippe. Além de natureza e cultura. Tessituras , Pelotas, v. 3, n. 1, p. 7-33, jan./jun. 2015.   opinião, aparentemente bem comum aqui no país de nascimento do grande acadêmico que esta palestra homenageia. Por outro lado a presente circunstância me oferece, talvez, uma oportunidade apropriada para confessar que existe pelo menos um aspecto do trabalho de Radcliffe-Brown que acho bastante estimulante, mesmo que tenha me deixado perdido por um tempo. A teoria sociológica do totemismo de Radcliffe-Brown me inspirou, alguns anos atrás, quando eu tentava entender o tratamento peculiar que os indígenas amazônicos dedicavam aos animais: mesmo que ativamente tratados como caça, ou temidos como predadores, os animais são, entretanto, considerados pessoas com quem os humanos podem, e devem, interagir de acordo com regras sociais. Naquela época, o modelo padrão disponível para conceitualizar relações entre seres humanos e naturais era a teoria totêmica de Lévi-Strauss, isto é, a ideia das descontinuidades entre espécies funcionarem como um modelo mental para a organização das segmentações sociais entre humanos. Todavia, obviamente este não era o caso amazônico, onde as diferenças entre humanos e não-humanos são de grau, não de natureza, deste modo trazendo à tona a descrição de Radcliffe-Brown do totemismo, no qual, citando-o, “a ordem  natural entra e se torna parte da ordem social”  5 . Para ele, esta fusão é possível por que as relações que os aborígenes australianos estabelecem com objetos e fenômenos naturais são similares àquelas que estabelecem entre eles mesmos, e os dois conjuntos de relações estão assentados em sua estrutura social. Esta ideia parece funcionar muito bem para o tipo de fenômeno verificado na Amazônia. Mas uma vez que o totemismo sociológico não é muito comum lá, e sempre é encontrado combinado com formas individuais de relações em que os animais são tratados como pessoas, construí um conceito hibrido, mantendo a teoria totêmica de Lévi-Strauss para casos como Austrália, e usando a teoria de Radcliffe-Brown para qualificar o que era na verdade uma relação não 5  Radcliffe-Brown, A. R . Structure and Function in Primitive Society; essays and addresses. (Londres, Cohen & West, 1952), p. 130.  9 essitur s   DESCOLA, Philippe. Além de natureza e cultura. Tessituras , Pelotas, v. 3, n. 1, p. 7-33, jan./jun. 2015.   totêmica com seres naturais, que eu batizei, sem muita criatividade, “animismo”. Se de acordo com Lévi -Strauss, o totemismo usa a descontinuidade entre seres naturais com o objetivo de mapear relações sociais entre humanos, minha hipótese radcliffe-rrowniana era que o animismo usa categorias elementares moldando a prática social, mapeando assim as relações entre humanos e objetos naturais 6 . Infelizmente, eu estava errado nas duas interpretações. Críticos amigáveis primeiro chamaram minha atenção para algo que eu deveria ter percebido sozinho, nomeadamente, que esta inversão muito pura, de fato, ratificava a distinção entre natureza e sociedade inerente em ambas as interpretações do totemismo, não fazendo, assim, justiça às cosmologias amazônicas onde tal distinção é irrelevante 7 . Também me dei conta que essa dualidade é igualmente insignificante no caso do totemismo, pelo menos do totemismo australiano, como tentarei demonstrar posteriormente. Paradoxalmente, este é um ponto de vista que Lévi-Strauss também endossa, não em Le Totémisme aujourd’hui , é claro, mas em La Pensée sauvage , onde escreve, se referindo ao sistema totêmico dos Menominee e dos Chippewa dos Grandes Lagos, que, neste caso, cada grupo totêmico deve ser considerado isoladamente, já “que tende a formar um sistema, não mais com outros grupos totêmicos, mas com certas propriedades diferenciais concebidas como hereditárias”: “então, ao invés de  duas imagens, uma natural e outra social (...) o que se obterá será uma única, contudo fragmentada, imagem socio- natural” 8 . Finalmente, ainda me tomou algum tempo para entender que meu erro inicial brotou do fato de ter tentado retirar, de processos relacionais materializados em instituições, propriedades ontológicas atribuídas a seres 6  Descola, Ph. ‘Societies of nature and the nature of society’ , in. Kuper, A. (ed.): Conceptualizing Society (Londres, Routledge, 1992), pp. 107-126; e ‘Constructing natures:   Symbolic ecology and social practice’ , in. Descola, Ph. e Pálsson, G. (eds.): Nature and Society: Anthropological Perspectives (Londres, Routledge, 1996), pp. 82-102. 7  Por exemplo, Ingold, T.: The Perception of the Environment. Essays in Livelihood,  Dwelling and Skill (London, Routledge, 2000); e Viveiros de Castro, E. ‘Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio’, Mana 2 (2) (1996), pp. 115-144. 8  Lévi-Strauss,C.: La pensée sauvage (Paris, Plon, 1962), pp. 154-155, tradução do autor.  10 essitur s   DESCOLA, Philippe. Além de natureza e cultura. Tessituras , Pelotas, v. 3, n. 1, p. 7-33, jan./jun. 2015.   do mundo para posteriormente distribuí-las em categorias, ao invés de fazer o contrário. Verdade, não estava sozinho: desde Durkheim, tem sido prática normativa dos antropólogos garantirem às formas sociais o privilégio explanatório. Necessário à época de arrancar para as ciências sociais emergentes um espaço próprio, este privilégio tornou inevitável que crenças religiosas, conceitos de pessoa ou cosmologias fossem explicados, definitivamente, pelos padrões sociais projetados na realidade e pelos efeitos estruturais destes padrões nas atividades graças às quais esta realidade é objetivada e dotada de significado. Ao derivar estruturas sociais de imperativos psicológicos, Lévi-Strauss foi um dos poucos que tentou escapar desta tendência. Mas as “leis da mente” que ele evoca são muito vagas para que esta derivação seja algo além de indutiva: exceto nas análises dos mitos, Lévi-Strauss sempre começa pelos estudos das instituições para depois avançar “em direção ao intelecto”, nunca o contrário. Agora , um sistema de relações não pode ser interpretado independentemente dos elementos que conecta, uma vez que estes elementos são entendidos não como indivíduos intercambiáveis ou unidades sociais já institucionalizadas, mas como entidades já dotadas, ab initio, de propriedades específicas que as tornem aptas ou não ao estabelecimento de determinadas conexões entre elas. Por isso senti a urgência de renegar os preconceitos sociocêntricos estabelecidos e supor que realidades sociais  –   i.e. sistemas relacionais estáveis  –   estão analiticamente subordinados a realidades ontológicas  –   i.e. os sistemas de propriedades que os humanos atribuem aos seres 9 . Minha palestra estará voltada à tentativa de tornar sólida esta opinião nada ortodoxa 10 . Inicio com uma intuição filosófica corroborada pela etnografia, combinada com um experimento mental para o qual não posso fornecer  justificativas, exceto os interessantes resultados antropológicos que carrega. 9  Verdade, algumas espécies não humanas também atribuem propriedades (ao menos características relacionais e comportamentais) aos humanos e outros não humanos; mas antes de podermos incluí-los numa teoria geral das ontologias muito terreno deve ser coberto. 10  Sou muito grato a Tim Ingold e Peter Marshall por seus comentários perspicazes sobre um rascunho desta palestra e suas sugestões sobre correções estilísticas.
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