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   Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia,  São Paulo, 13:  269-301, 2003. HISTÓRIA DA CONSTRUÇÃO DA ARQUEOLOGIA HISTÓRICA BRASILEIRA  Maria Dulce Gaspar  * Introdução A Arqueologia Histórica brasileira é um campo de investigação fascinante que desvenda uma série de hábitos, costumes e mentalidades que se estabeleceram no que veio a ser o território  brasileiro e países vizinhos com o início da colonização européia. Para apresentar a história de sua construção vou apoiar-me no balanço bibliográfico da disciplina elaborado por Andrade Lima (1993). Em seu levantamento, apresenta as primeiras intervenções arqueológicas em contextos derivados dos europeus e seus descendentes e mostra como o início da disciplina estava atrelado aos trabalhos de recuperação do patrimônio cultural brasileiro.Como estratégia de abordagem do tema, vou correlacionar os desdobramentos da Arqueologia Histórica com a Arquitetura, a História sempre considerando-a como um desdobramento da Arqueologia Pré-Histórica. Terei como referência a análise sobre Arqueologia brasileira empreendida  por Prous (1991) e a avaliação dos períodos mais recentes feita por Barreto (2000). Vou também estabelecer correlações com as principais correntes teóricas que nortearam as pesquisas na Europa e Estados Unidos e que influenciaram a construção da Arqueologia brasileira. Farei uma breve avaliação da Ecologia Cultural, do Neo-Evolucionismo, da Nova Arqueologia (ou Arqueologia Processual) e do Pós-Processualismo, sempre correlacionando com a Arqueologia Histórica. Breve histórico da Arqueologia É difícil estabelecer quando começou o interesse por objetos relacionados com o passado. (*) Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, Pesquisadora do CNPq e FAPERJ. Coleções de antigüidade foram formadas desde o século VI antes da era Cristã. Nabónido, último rei da Babilônia, colecionou antiguidades e escavou em Ur, mas não é possível considerar que a arqueologia tenha surgido nesse momento (Daniel 1967).Foi necessária uma série de passos, acúmulo de saber, confluência de interesses, mudança de  paradigma para formar a disciplina. Nesse processo, os viajantes, na era do antiquarismo, tiveram  papel fundamental no que se refere ao acúmulo de informações que levaram a uma reflexão sobre o  passado.Luiz de Castro Faria (1989) fornece uma acurada leitura do início da disciplina que resumo e apresento. O antiquarismo foi a primeira expressão do que mais tarde seria conhecido como arqueologia clássica. No século XVI, os dilettanti  já se extasiavam diante das obras de arte do mundo antigo e fundavam uma estesia nova, erguida sobre uma arqueografia poética, que atualizava o passado. No século XVIII, a sociedade de Antiquários, em ação desde o primeiro decênio, começa a  publicar a sua revista com o título de Arqueologia.É nessa tradição renascentista que a civilização greco-romana é conhecida e reconhecida. A arte começa a contar com a sua própria história recortada de todas as outras e que contaminará toda a prática da arqueologia, pois alimentará o colecionismo - fome insaciável de peças belas e raras. E a essa tradição que se filia à Arqueologia Clássica.A Arqueologia, a que é pré-histórica, e que interessa aqui, filia-se a outra tradição dominante do pensamento ocidental. Só no século XIX a História Natural começa a se desdobrar em Ciências Naturais. Foi com Charles Lyell e os seus  princípios de geologia, com o reconhecimento das três idades sucessivas (pedra, bronze e ferro) com Thomsen, e a sua popularização através dos museus, com os postulados evolucionistas de Spencer que afirmava que “o progresso não é um 269  Estudos Bibliográficos: Ensaios -  Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia , São Paulo, 13:  269-301, 2003. acidente e sim uma necessidade”, com a teoria da evolução de Charles Darwin, que as Ciências  Naturais vão se desdobrar.O surgimento das sociedades científicas, das universidades, dos museus, as revistas especializadas e o empenho dos naturalistas viajantes associado com a realização de grandes expedições de exploração compõem o ambiente intelectual inquieto que marca, de maneira profunda, o século XIX. Como decorrência, ampliam-se a Geologia, a Botânica, a Zoologia, assim como a Anatomia Humana desdobra-se em estudo comparado das raças e evolução do homem. É nessa outra grande tradição do pensamento ocidental que se insinua a  pré-história e que, muito posteriormente, se desdobra em Arqueologia Histórica.A definição de Arqueologia Histórica Brasileira é o campo de saber que pretende dar conta da introdução e do desenvolvimento no território que se transformou na nação brasileira de novas  práticas políticas, sociais e econômicas que caracterizavam países europeus em seu processo de expansão territorial e ocupação das terras indígenas na América do Sul.A estruturação da Arqueologia Histórica, em diferentes países, é recente. Na Inglaterra, a prática da Arqueologia em contexto medieval está presente desde 1840, mas é só em 1957 que surge a Society for Medieval Archaeology.  Nos Estados Unidos, cresceu lentamente até a década de 1960, quando se deu a criação, em 1967, da Sociedade de Arqueologia Histórica. No mesmo ano foi criada a Sociedade de Arqueologia Pós-Medieval, na Inglaterra. A Austrália, três anos antes, já havia formado sua sociedade de Arqueologia Histórica. Atualmente, em diferentes países da América Latina e no Canadá, há uma multiplicação de centros de  pesquisas, sociedades científicas, cursos de pós- graduação voltados para o estudo dos processos relacionados com o estabelecimento dos europeus. (Meneses 1983a; Orser 1996).A Arqueologia Histórica é assim considerada uma disciplina recente no contexto cientifico. No Brasil, embora desde a década de 1930 algumas intervenções tenham sido realizadas em sítios históricos na região Sul, foi apenas a partir da década de 1960 que a Arqueologia, como um todo, e a Arqueologia Histórica, em particular, adquiriram características científicas mais sistemáticas.Segundo Andrade Lima (1993), já no final da década de 1930, Hermán Kruse empenhou-se nalocalização de “casas fortes”, que foram construídas no século XVI, por Gabriel Soares de Souza em suas penetrações no sertão baiano. Nessa mesma época, Loureiro Fernandes desenvolveu um trabalho pioneiro na Serra Negra, no Paraná, quando investigou ossadas humanas e vestígios de argila destinados a lacrar as aberturas na rocha que foram utilizadas para sepultar corpos. Esses túmulos foram identificados como pertencentes a negros quilombolas, mas não foram feitos estudos mais detalhados. Na década de 1940, Virgínia Watson estudou a Ciudad Real do Guaira, antiga vila espanhola quinhentista no Paraná, analisou as cerâmicas e abriu caminho para futuros trabalhos nesse povoado.Já na década de 1950, ocorrem vários estudos: Padre Luiz Gonzaga Jaeger fez intervenções assistemáticas nas missões jesuíticas de São  Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Borja. Foram feitas escavações na capela do antigo Colégio dos Jesuítas, em Paranaguá, por Loureiro Fernandes, tendo como objetivo auxiliar os trabalhos de restauração do prédio. Inaugura-se um aspecto que vai marcar a trajetória da Arqueologia Histórica - o desenvolvimento de estudos associados aos trabalhos de restauração.Continuando com Andrade Lima (1993), durante um longo período, a Arqueologia Histórica  brasileira dedica-se ao estudo de prédios coloniais, investiga igrejas, missões, conventos, fortificação e solares etc.. E fortemente impregnada pela ideologia então vigente nas esferas patrimoniais, cuja concepção elitista e arquitetônica de bem cultural  privilegia os monumentos de pedra e cal. Dessa forma, a Arqueologia teve, como seu principal interesse, o estudo dos segmentos dominantes da sociedade brasileira. Foi reduzida, na maioria dos casos, a uma técnica a serviço de outras áreas de conhecimento, como a História e a Arquitetura. Operou em um nível meramente arqueográfico, sem explorar o seu potencial interpretativo, ficando em um plano de relativa marginalidade frente à História, à Arquitetura e à própria Arqueologia Pré-histórica.Analiso, agora, algumas características da  pesquisa arqueológica no Brasil, no momento em que surge um maior interesse em relação aos sítios históricos. Na década de 1950, a Arqueologia  brasileira passa por um momento bastante importante no que se refere a sua estruturação em termos científicos. São contribuições importantes a Missão Francesa e a influência de pesquisadores america 270  Estudos Bibliográficos: Ensaios —   Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia,  São Paulo, 13:  269-301, 2003. nos. Os arqueólogos franceses, seguindo o modelo adotado pelas várias missões francesas na América do Sul, dedicaram-se aos estudos de sítios de caçadores e dos grafismos rupestres e os pesquisadores americanos voltaram as suas atenções especialmente para os sítios cerâmicos e para os sambaquis (Barreto 1999).É de particular interesse, a contribuição de Betty Meggers e Clifford Evans, especialmente as  pesquisas desenvolvidas no bojo do Programa  Nacional de Pesquisa Arqueológica (PRONAPA), ativo no período compreendido entre 1965/70 e que construiu o primeiro panorama da pré-história  brasileira. Vou deter-me na contribuição do casal Evans, pois materiais históricos foram recuperados, analisados e interpretados segundo a perspectiva abraçada por eles. Perspectiva esta que se difundiu amplamente no Brasil e, até os dias de hoje, é uma referência. Em um determinado período, especialmente a década de 1970 e até mesmo 1980, as estratégias de campo e de análise adotadas pelo PRONAPA foram recorrentes na arqueologia  brasileira. Pode-se dizer que era a maneira  preponderante de se fazer pesquisa, muito embora louváveis exceções sempre tivessem se destacado.Trata-se de uma linha de pesquisa fortemente influenciada pela Ecologia Cultural americana, de Julian Steward, e especialmente pela visão de Betty Meggers que prioriza os fenômenos naturais ao construir interpretações sobre mudança social. No PRONAPA, o casal Evans adotou como estratégia de ataque dos sítios arqueológicos a realização de coletas de superfície e de pequenas sondagens feitas a partir de níveis artificiais. Os materiais foram ordenados segundo a seriação Ford,  procedimento que organiza os vestígios a partir de tipologias concebidas para detectar mudanças através do tempo e do espaço. Segundo esta linha de pesquisa, os materiais são classificados segundo as categorias de fase e tradição inspirados em Willey& Phillips (1955).Para Meggers & Evans (1985), fase e tradição mantêm a mesma relação que gênero biológico  possui com a espécie, sendo que a tradição persiste  por mais tempo e ocupa áreas mais extensas do que a fase. A fase por sua vez é definida segundo uma seqüência seriada e representa a expressão arqueológica de uma comunidade etnográfica. No que se refere aos sítios cerâmicos, as  pesquisas realizadas no âmbito do PRONAPA forneceram um panorama espaço-temporal dastradições arqueológicas encontradas no Brasil que ainda hoje é uma referência importante para a pré- história. No que se refere à análise de outros tipos de sítios, a fragilidade teórico-metodológica dessa linha de pesquisa fica extremamente evidente e este é o caso específico da abordagem de sítios históricos.É na década de 1960 que surgem os primeiros trabalhos de Arqueologia Histórica efetivamente sistemáticos, tanto no sul como no nordeste do  país. No Rio Grande do Sul, seguindo a orientação do PRONAPA, são investigadas as missões  jesuíticas e é criada a primeira fase cultural referente ao período histórico, a fase Missões. São os trabalhos de localização de povoados cobertos  pela vegetação, análise de materiais provenientes de coletas de superfície e sondagens e identificação de técnicas introduzidas pelos europeus. No nordeste, à mesma época, surgiram pesquisas em fortificações e igrejas de Pernambuco. No decorrer dos anos 1970, os estudos relacionados com as Missões foram enfatizados tanto no sul como no nordeste do Brasil. Os estudos realizados nas Missões Jesuíticas-guarani apontaram para um tema de pesquisa que iria receber atenção significativa dos arqueólogos. São as investigações sobre contatos interétnicos e os fenômenos de aculturação, que seriam aprofundados na década de 80 (Andrade Lima 1993). No Rio de Janeiro, Ondemar Dias identifica uma cerâmica que denomina de “cabocla” resultado do contato entre índios e europeus, material que passou a integrar a tradição Neobrasiliera e que se refere ao período colonial. Segundo definição apresentada em Chmyz (1976:145), a tradição cultural Neobrasiliera é “...caracterizada  pela cerâmica confeccionada por grupos familiares, neobrasileiros ou caboclos, para uso doméstico, com técnicas indígenas e de outras procedências, onde são diagnosticadas as decorações: corrugada, escovada, incisa, aplicada, digitada, roletada, bem como asas, alças, bases planas em pedestal, cachimbos angulares, discos perfurados de cerâmica e pederneira”A tradição Neobrasileira é um instrumento de análise que pretende dar conta do processo desencadeado com a chegada dos europeus ao que viria ser a nação brasileira. Porém, na maioria dos trabalhos onde se observa o uso do termo, ele está voltado quase exclusivamente para a descrição de cacos cerâmicos e a caracterização das técnicas de 271  Estudos Bibliográficos: Ensaios -  Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia , São Paulo, 13:  269-301, 2003. confecção. Investe-se, especialmente, no estudo da cerâmica colonial, outros materiais eventualmente  presentes nos sítios raramente são mencionados.A visão reducionista desse esquema, fortemente marcado pelo determinismo ambiental, pouco se adequa à interpretação de fenômenos pós-contato com europeu. A riqueza documental sobre este  período - quer seja relato de cronistas, de religiosos ou toda a produção sobre o Brasil Colônia, Império e República - mostra a complexidade dos fatos sociais. Evidencia a inadequação dos instrumentos de análise, amplamente utilizados pela Arqueologia brasileira, para dar conta do período histórico. A tradição Neobrasileira, um dos  produtos do PRONAPA, teve vida curta.A restrição de seu uso é um indicador de que rapidamente a comunidade de pesquisadores  percebeu que as premissas abraçadas pelo PRONAPA não poderiam dar conta de uma realidade que envolvia os reinos de Portugal, Inglaterra, França e Holanda, diferentes povos indígenas e nações africanas. As nações européias e suas colônias, em pleno mercantilismo e com sofisticado controle de exploração do ambiente, dificilmente poderiam ser estudadas à luz da versão da Ecologia Cultural introduzida no Brasil por Betty Meggers e Clifford Evans.É nesse contexto científico que surge um dos desdobramentos da Arqueologia, a Arqueologia Histórica. Para avaliar o seu desenvolvimento, e especialmente as relações com a Arqueologia Pré- histórica, analisarei as publicações relevantes que divulgam os resultados de pesquisa no Brasil. Optei  por fazer um balanço apoiando-me nos anais do III Seminário Goiano, realizado em 1980, e, sempre que possível, nos cadernos de resumos divulgados  pela Sociedade de Arqueologia Brasileira (S AB). Informo que não tive acesso nem ao caderno de resumos nem aos anais da reunião da S AB que ocorreu em 1985.OIII Seminário Goiano foi um momento importante na história da disciplina, pois a comunidade de pesquisadores se reuniu para elaborar uma síntese da ocupação pré-histórica do território nacional. Neste encontro, também, foi amadurecida a idéia de formar uma sociedade de arqueologia.A escolha em analisar os volumes das reuniões científicas da S AB para acompanhar a constituição da Arqueologia Histórica recai nos seguintes fatos: a associação congrega número significativo de  profissionais, a apresentação e publicação de idéiasestá vinculada apenas à filiação que se dá mediante exigências mínimas e à periodicidade das reuniões. Destaco, ainda, que a S AB é resultado do processo de amadurecimento da disciplina e que para seus congressos são eleitos temas considerados como  pertinentes e significativos pela comunidade científica.Escolhi analisar os cadernos de resumos dos encontros da SAB pois, diferentes dos anais das reuniões, eles melhor expressam os interesses enfocados em cada reunião. Corroborou minha opção o fato de os anais, muitas vezes, terem sido divulgados de maneira tão tardia que, praticamente, coincidem com a reunião seguinte (este foi o caso da X SAB, em 1999). Além do mais, por diferentes motivos, nem todas as comunicações apresentadas nos encontros resultam em contribuições para os anais dos congressos. Alguns autores preferem divulgar em outros meios e certos trabalhos não têm fôlego para se transformarem em artigo. Dessa forma, considero que os livros de resumos melhor expressam os interesses da comunidade no momento de realização de cada congresso. Infelizmente, não encontrei o programa da IH reunião da SAB que ocorreu em Goiânia, em 1985.Para proceder à análise das contribuições estabeleci 10 categorias: caçadores, pescadores/ coletores, horticultores/ceramistas, nativos, grafismos, antropologia física, teoria e método, abordagens regionais, patrimônio cultural, estudos de região, arqueologia histórica, arqueologia clássica e notícias. A categoria “caçadores” inclui as contribuições que versam sobre o início da ocupação do território brasileiro, as reflexões sobre as tradições Umbu, Humaitá e Itaparica, bem como os estudos de indústrias líticas. “Pescadores/ coletores” refere-se aos grupos sociais que ocuparam o litoral brasileiro, às tradições ou fases denominadas de Macaé e Itaipu, aos estudos sobre sambaquis sujos ou limpos e às adaptações litorâneas. “Horticultores/ceramistas” é a categoria que agrupa os estudos relacionados com as tradições ceramistas e grupos horticultores, já a categoria “nativos” reúne reflexões sobre grupos indígenas quer seja da perspectiva da etnoarqueologia ou da etnohistória.“Grafismo” aglutina as contribuições sobre  pintura e gravura rupestre. “Antropologia Física” reúne os trabalhos que tratam de análise dos esqueletos humanos, já “teoria e método”, conforme o próprio título informa, incorpora reflexões 272
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