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O que é isso, ex companheiro Lula

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O livro, publicado em 2004, é uma análise psico-política do governo Lula, em que, já no seu primeiro ano, demonstrava as distorções que se seguiriam nos oito anos de seu mandato.
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  • 2. O quê que é isso, ex-companheiro Lula? Para o título deste livro, o autor buscou uma frase muito dita por Lula – “quê que é isso, companheiro?” – quando queria censurar alguém. Lembrou-se também do título do livro de Fernando Gabeira, O que é isso, companheiro, uma crítica pertinaz aos anos de ditadura. É pois, uma crítica ao atual governo. Aqui, o autor faz uma análise psico-política do governante Lula e de seu governo. Tenta compreender sua trajetória política a partir de uma personalidade que, graças a sua inteligência e aptidões, somadas a uma persistente busca de ascensão social, levaram-no à presidência da República. Para chegar aonde chegou, Lula usou de artifícios aprendidos na luta para sobreviver às adversas circunstâncias de vida, a começar de sua infância pobre de retirante nordestino, depois nas lutas sindicais e, por fim, na liderança de um partido político. Alcançando o poder, Lula e o PT fizeram alianças e acordos espúrios, sacrificaram companheiros e programas partidários, traíram seus eleitores. De fato, tinham, como ainda hoje têm, apenas um projeto de poder, não de governo. O fisiologismo e o nepotismo continuam sendo uma prática rotineira no controle partidário da máquina pública. Os programas sociais não passam de captadores de votos e apoio popular, a educação e a saúde encontram-se abandonadas, a violência aumenta, a reforma agrária é mera balela, a política econômica, como no governo anterior, tem como objetivo básico atender aos interesses do sistema financeiro internacional e nacional, continua-se pagando juros reais de uma fictícia dívida externa. A miséria, a corrupção e a impunidade permanecem sendo as grandes vergonhas nacionais. Há muita esperança, mas pouca mudança, muita retórica e pouca ação, muita demagogia e pouca verdade. O governo Lula revelou-se uma continuidade piorada de FHC. Omisso diante dos problemas que tem de enfrentar, inábil como condutor de sua equipe e inapto como líder maior do país, Lula tornou-se o grande engodo, o maior blefe já acontecido na nossa história republicana recente. E que poderá vir a se tornar um desastre nacional de proporções imprevisíveis. Esta é a análise que o autor oferece aos leitores deste livro, numa tentativa de entender, de forma crítica, um momento de nossa história contemporânea. Marcos Goursand de Araújo é psicólogo social. Formou-se em Psicologia na PUC-MG, em Belo Horizonte, doutorou-se pela PUC-SP e fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Foi professor de várias universidades, dentre elas a UNESP, a Metodista de Piracicaba e as federais de Santa Catarina, do Espírito Santo e Minas Gerais. Participou da fundação de sociedades de Psicologia, do primeiro sindicato da classe e do Conselho Federal de Psicologia. Esteve também na reorganização do PSB em 1985, fechado pela ditadura em 1965. Foi seu vice-presidente, em Minas Gerais, em 1989, quando participou do lançamento da candidatura de Lula à Presidência, tendo acompanhado Lula e Bisol em comícios, encontros e caminhadas. Atualmente é professor da UEMG em Divinópolis e preside a Sociedade Brasileira de Biosofia, organização não-governamental sem fins lucrativos. E-mail: goursand@gmail.com 3
  • 3. Marcos Goursand de Araujo O QUÊ QUE É ISSO, EX-COMPANHEIRO LULA? UMA AVALIAÇÃO PSICO-POLÍTICA DO ATUAL GOVERNO Belo Horizonte Setembro de 2004 4
  • 4. Copyright © 2004 by Marcos Goursand de Araújo. Todos os direitos reservados. E-mails do autor: mgdearaujo@hotmail.com e biosofia@uol.com.br Ficha Catalográfica Impresso no Brasil Printed in Brasil 5 Araújo, Marcos G. O quê que é isso, ex-companheiro Lula? Uma avaliação psico-política do seu governo. . Belo Horizonte: Ed. do autor, 2004. 1. Psicologia. – 2. Política. – 3. Poder. – 4. Governo. – 5. Lula. Registro no. 320.062 - Livro: 589 - Folha: 436, em 11/06/2004. Fundação Biblioteca Nacional: Rua da Imprensa, 16 - sala 1205 - Centro - Rio de Janeiro/RJ Tel. (21) 2220-0039 - Fax. (21) 2240-9179 - E-mail: eda@bn.br Capa: Adriana Nunes Impressão: Gráfica Sidil Ltda. Av. Paraná, 1480 - Divinópolis/MG
  • 5. Aos desprovidos de: paz, os afligidos; saber, os incultos; valor, os humilhados; bens, os empobrecidos; razão, os enlouquecidos; autonomia, os submetidos; direitos, os injustiçados; liberdade, os oprimidos. Enfim, a todas as vítimas dos abusos do poder. 6
  • 6. Existem até teorias prontas para explicar todas as derrotas da esquerda, e evidentemente, deixar de explicar a derrota específica que a gente está querendo examinar. Uma delas, reza que a vanguarda tem, sistematicamente, falhado na condução das revoluções. As revoluções estão maduras, as massas estão prontas, mas são permanentemente traídas por suas vanguardas. Era como se as vanguardas tivessem uma tendência intrínseca à traição ou fossem, cronicamente, incapazes de realizar sua tarefa. (Fernando Gabeira, em O que é isso, companheiro?) Tudo nos é proibido, a não ser cruzarmos os braços? A pobreza não está escrita nos astros; o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos. De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranqüilidade e a ordem; é a ordem, de fato, da cotidiana humilhação das maiorias, mas ordem em última análise; a tranqüilidade de que a injustiça continue sendo injusta e a fome faminta. (Eduardo Galeano, em As veias abertas da América Latina) 7
  • 7. Ho Chi Minh: um ideal, uma luta, um modelo Ho Chi Minh talvez possa ser considerado o maior estadista do Século XX, não apenas porque era o líder de uma nação que foi a única até hoje a impor uma humilhante derrota militar aos americanos, na Guerra do Vietnã, mas também porque reunificou o seu país e colocou sua vida inteiramente a serviço de seu povo. Professor e também operário, pois trabalhou como jardineiro, marinheiro e cozinheiro, Ho Chi Minh não recebeu ainda o devido reconhecimento da História, pois deveria ser colocado, pelo menos ao lado, senão acima, de outros grandes estadistas e libertadores. Ho Chi Minh nasceu em 19 de maio de 1890 e morreu em 3 de setembro de 1969. Apesar da infância pobre, vivida numa cabana de palha, estudou numa escola de Hué, no sul do Vietnã. Foi jardineiro, lavador de pratos, cozinheiro, marinheiro, professor e poeta. Falava fluentemente francês, inglês, alemão, russo e chinês. Comandou os vietnamitas na luta contra as forças francesas, japonesas e americanas que sucessivamente dominaram o país, a antiga Indochina. Suas tropas, denominadas Vietminh, assumiram o controle do país, em 1945, depois da rendição do Japão (que havia ocupado o país em 1941), proclamando a República Democrática do Vietnã, da qual passou a ser o presidente. Reagindo a reconhecer a independência de sua antiga colônia, a França deu início à guerra pela retomada da Indochina. Durante oito anos, as guerrilhas do Vietminh combateram as tropas francesas, derrotando-as finalmente na batalha de Dien Bien Phu, em 1954. Mas no acordo celebrado em Genebra, os representantes de oito nações, incluindo os Estados Unidos, dividiram o Vietnã em duas partes: o do Norte, liderado por Ho, e o do sul, onde impuseram o imperador Bao Daí. Ho Chi Minh comandou a luta no Vietnã do Norte, na década de sessenta, quando a guerra recomeçou. Os Estados Unidos mandaram tropas para ocupar o Vietnã do Sul e, a partir de 1965, iniciaram os bombardeios militares contra o Vietnã do Norte, promovendo um verdadeiro genocídio que custou a vida de mais de 2 milhões de pessoas. Finalmente, em 1975, os americanos foram derrotados e o país foi reunificado sob a denominação de Vietnã. Ho Chi Minh era um asceta e levava uma vida simples e modesta, mesmo enquanto presidiu o seu país, sem jamais ter se embriagado com o poder e as vantagens do cargo. Ao morrer, em 1969, aos 79 anos, vitimado pelo câncer e por uma tuberculose que o acometia desde moço, tornou-se um símbolo da luta que prosseguiu até a expulsão dos americanos. Que este valoroso líder possa servir de modelo para nossos governantes e que o bravo povo vietnamita venha a se tornar um exemplo de luta, de trabalho e de coragem para nós brasileiros. Estes são os meus anseios infactíveis! 8
  • 8. ÍNDICE PARTE 1 APRESENTAÇÃO, ANTECESSORES E ANTECEDENTES 10 A título de introdução: porque um psicólogo escrevendo sobre política? 12 Carta aberta ao presidente Lula 16 Carta aberta ao ex-companheiro Lula 18 Eleições no Brasil: o que os fatos vêm mostrando 20 Pesquisas pré-eleitorais: meio de informação ou manipulação? 26 Lula e o PT: o início de uma esperança 28 A campanha eleitoral de 2002, um aceno à direita 32 PARTE 2 O PT: UM PROJETO DE PODER, NÃO DE GOVERNO 38 O PT no governo: um partido centralista, autoritário e de direita 40 O fisiologismo e o nepotismo como meios para o controle partidário da máquina pública 46 A nova ética petista 49 Os programas sociais: investindo em votos 55 O sistema financeiro, o novo parceiro do PT 61 A mídia, o quarto poder 69 PARTE 3 LULA E O NOVO PT: UMA ANÁLISE CRÍTICA 71 Lula, o ex-trabalhador : um perfil psico-político 73 Lula, uma personalidade borderline? 79 Lula, o grande blefe, a fabricação de um mito 83 O grupo palaciano 86 Muita esperança e pouca mudança, muita retórica e pouca ação, muita demagogia e pouca verdade 92 Fraseologia: somos todos idiotas? Frases de Lula e frases sobre Lula 95 “Me engana que eu gosto”: os altos índices de aprovação de Lula 101 PARTE 4 AS FALSAS REFORMAS OU MUDAR PARA FICAR TUDO IGUAL. 104 Reforma, remendo ou rapinagem? 106 Reforma da previdência: além do que foi mostrado 107 Reforma tributária: aumentando a carga de impostos 113 Continuidade do governo anterior: mudança zero 117 As falsas promessas, as traições e omissões de Lula 122 9
  • 9. PARTE 5 AS GRANDES QUESTÕES QUE NÃO SÃO ENFRENTADAS 128 Uma política econômica para perpetuar a injustiça e a desigualdade social 129 Um governo sem educação 136 Política de saúde ou indústria da doença? 142 Uma política externa de bravatas 144 Juros da dívida eterna 148 Reforma agrária, uma agrura sem fim 152 Corrupção: uma vergonha nacional 159 Política de segurança ou de violência? 161 PARTE 6 QUE PAÍS É ESSE? 175 O Brasil no divã 176 Ainda podemos esperar algo para o futuro? 186 10
  • 10. PARTE 1 APRESENTAÇÃO, ANTECESSORES E ANTECEDENTES Comecei a escrever este livro em abril de 2003, quando já se delineava a mudança de orientação política do governo petista empossado em janeiro. Era ainda um dos poucos brasileiros já decepcionados com o que se afigurava como uma traição aos eleitores que haviam conduzido Lula à Presidência da República, acreditando nas suas promessas de mudança rumo a um Brasil melhor. De lá para cá, os fatos foram apenas confirmando aquilo que se tornou o maior engodo que um presidente e seu partido fizeram ao povo brasileiro em um período democrático de sua história. As verdadeiras faces de Lula e do PT foram se delineando numa caracterização impossível de se imaginar poucos anos antes. As promessas eram meras palavras, não havia projeto de governo e sim de poder, a democracia petista era uma falácia, as mudanças eram falsas e o governante e seu partido não eram de esquerda como quiseram fazer parecer. O medo, que havia cedido à esperança, voltara. O sonho transformava-se em pesadelo. Ou como expressava a frase no pára- choque de um caminhão em uma de nossas estradas, “antes do Lula eu tinha pesadelo; agora nem consigo mais dormir”. E o governo seguia a estrada do continuísmo, mais esburacada do que as do país. Um dos grandes problemas de Lula, até chegar à Presidência, era a sua total inexperiência em qualquer cargo executivo, fato que muitos de nós procuramos minimizar. O seu único cargo público anterior foi o de um inexpressivo deputado federal que não correspondeu à sua enorme votação. Aí está a conseqüência: Lula está demonstrando não ter capacidade para governar e acaba dependendo demais daqueles que deveriam ser seus auxiliares e não seus guias, como José Dirceu e Antônio Palocci. Acreditávamos que com sua capacidade de liderança, inteligência e bom-senso, e cercado de intelectuais de primeira, faria uma grande equipe e seria um grande governante. Erramos! Lula não está conseguindo sequer exercer em relação aos seus auxiliares imediatos a mesma liderança que demonstrou como sindicalista. Não se quer cobrar dele uma sabedoria profunda em todas as áreas de atuação do governo, mas que tenha capacidade para elaborar e tomar decisões sem ter que depender visceralmente de seus auxiliares. Infelizmente, Lula está mostrando não ter condições para o cargo a que foi eleito. Isto poderá ter um custo irreparável para o povo brasileiro, que além de sofrer com o agravamento dos problemas nacionais, ainda 11
  • 11. poderá ser tentado a um retorno ao passado. A hipótese do retorno de uma direita pior que a neo-liberal, no atual quadro de total ausência de verdadeiras lideranças no Brasil, não é improvável. Sabemos que, inúmeras vezes, a sede de poder tem tornado o homem insano e possivelmente não há qualquer outro impulso humano que tenha sido capaz de produzir sentimentos e ações tão destrutivas. A história é principalmente uma sucessão de fatos em que a luta pelo poder é um agente primordial. O desejo de poder, diferentemente dos instintos que se aplacam quando satisfeitos, parece não ter limites. Uma vez alcançado, ele busca novas conquistas. Essa insaciedade do poder tem levado dirigentes poderosos a produzir devastações incomensuráveis e a serem eles próprios tragados pelo próprio processo de destruição. Napoleão e Hitler são talvez os mais conhecidos dos trágicos exemplos históricos disso. Lula e o PT são expressões bastante atenuadas, mas muito recentes e próximas de nossa pobre realidade. O psicólogo tem por obrigação profissional confrontar as pessoas com a realidade, por mais dolorosa que ela seja, pois só assim elas poderão enfrentá-la melhor. Ele é a antítese dos vendedores de ilusão: seitas religiosas, loterias, futebol, shows de milhões, novelas. Como tal, não tenho dúvida de que a Psicologia pode trazer sua contribuição para compreendermos o aparentemente incompreensível quadro político brasileiro do momento. Da mesma maneira que muitos eventos históricos podem ser melhor analisados se neles se incluírem estudos sobre o desenvolvimento e as motivações de indivíduos que produziram ou conduziram tais eventos. É uma melhor percepção de nossa história recente e de alguns de seus principais personagens, o que estamos tentando fazer. Este livro foi escrito para pessoas comuns – anônimas, desprovidas de status, fama, riquezas, poder – como o autor, mas também como este, inconformadas diante dos horrores que diariamente permeiam o nosso cotidiano. Resta-nos pelo menos o direito de não nos acomodarmos e se não pudermos fazer mais nada, que pelo menos não percamos a capacidade de nos indignar. Sei que nada mudarei dessa realidade opressiva, vergonhosa, injusta e desumana em que vivemos. Mas dar-me-ei por satisfeito se, de alguma maneira, algumas das idéias, situações e experiências aqui relatadas encontrarem eco em você, meu caro leitor, que está tendo a paciência e a gentileza de continuar essa leitura. Quiçá algum dia possamos enxergar a luz no fim do túnel. 12
  • 12. A título de introdução: porque um psicólogo escrevendo sobre política? A psicologia e a política estiveram presentes em minha vida nos últimos quase cinqüenta anos, a primeira por vocação e a segunda por ilusão. Como outros idealistas do meu tempo, acreditava que a política seria capaz de transformar o mundo e nos dar uma sociedade mais igualitária, humana e justa. Com a psicologia, vi que poderia ajudar as pessoas a se modificarem internamente e se tornarem mais felizes e realizadas, o que me levou a praticá-la até hoje. Mas, por decepção com a prática política brasileira, jamais quis me candidatar a qualquer posto eletivo e nem participar de cargos em governos. Desde o início da puberdade tive a oportunidade de conviver com políticos no bar e sorveteria de meu avô, freqüentado por vereadores, deputados e até por governadores, já que ficava a apenas quatro quadras do Palácio da Liberdade, na avenida principal do bairro, a Cristóvão Colombo. Havia também gente que vinha de longe, para saborear o pernil de porco e os salgadinhos preparados por minha avó, geralmente acompanhados por uma cerveja estupidamente gelada e uma branquinha especial, puríssima e envelhecida, que o meu avô reservava para os bons apreciadores. Além de políticos, o bar era freqüentado também por intelectuais e gente que mais tarde iria se destacar em outros campos. Lembro-me do Roberto Drummond, futuro grande escritor e novelista, do Chaim Katz, que se tornaria um renomado psicanalista, do Roberto Abdalla, que viria a ser um cirurgião famoso nos Estados Unidos (foi ele que operou o jogador Tostão quando este sofreu descolamento da retina), dos Mata Machado e do Herbert de Souza, o Betinho, meu colega mais velho no Colégio Estadual, já com todo aquele carisma que faria dele futuramente uma das mais respeitadas personalidades brasileiras. E havia o terrível pessoal da turma da Savassi, que fazia ponto ali também. Recordo-me do Cacique, do Cacau, do Jacaré, do Odilonzinho e de alguns outros, que mais tarde, dentre outras estripulias, iriam criar a Banda Mole, que chegou a ser a maior do Brasil, inspirada na Banda de Ipanema, fundada por Sérgio Cabral e Albino Pinheiro. Meu avô, um italiano calmo e bonachão, mas de olhar severo, era querido e respeitado pela turma. A uma certa hora ele dizia “gente, está na hora de vocês irem para casa; eu também preciso dormir”. O pessoal pagava a conta e ele fechava as portas. Nas sextas-feiras, quando a turma saía, eu ia junto também, para fazer o que chamávamos de “via sacra”, uma “peregrinação” pelos bares do caminho em direção à zona boêmia. Se há algo que não posso dizer é que minha juventude tenha sido monótona. Como estudava pela manhã, gostava de ficar ali à tarde ou à noite ajudando meu avô e conversando com as pessoas. Tinha a oportunidade de ficar batendo papo com o Péricles Gomide Jr., o Peri, que era escritor e vinha todo início de noite tomar um traçado (cachaça com vermute), uma grande figura de pouco mais de um metro e meio de altura, mas de uma elevada estatura humana, cultural e intelectual. Foi com ele que aprendi o que era socialismo (de que não se falava nas escolas da época) e a entender criticamente a vida política. Ainda jovem, entrara para a Juventude Socialista do PSB, o único partido a que pertenci até hoje, apesar das muitas decepções e frustrações que me tem dado (e que não seria diferente com os outros, haja visto o que hoje está ocorrendo com os petistas autênticos). Em 1962, lançamos a candidatura do jornalista José Maria Rabelo, diretor do jornal Binômio, o precursor do Pasquim, à Prefeitura de Belo Horizonte, em protesto contra os demais cinco candidatos, que achávamos oportunistas e fisiológicos. O Zé Maria ficou em último lugar, mas nem por isso desanimamos de nossa luta. 13
  • 13. Continuava militando na política enquanto cursava Psicologia. Ainda estudante, fui trabalhar na equipe do prof. Pierre Weil, no antigo Banco da Lavoura. Logo que me formei, em dezembro de 1963, fui trabalhar como psicólogo social no IDAGO – Instituto de Desenvolvimento Agrário de Goiás, que era o órgão encarregado de promover a reforma agrária no estado. Pouco depois, o golpe de 64 desmantelou a primeira experiência contemporânea efetiva e bem sucedida de reforma agrária 1 . Voltando a Belo Horizonte, decidi dedicar-me mais especificamente à Psicologia. Associei-me a mais três jovens colegas e a um conhecido psiquiatra de Belo Horizonte, o Dr. Halley Alves Bessa, para fundar o primeiro instituto particular de psicologia da cidade, o IPAMIG - Instituto de Psicologia Aplicada de Minas Gerais. O instituto cresceu e, pouco depois, vieram se
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