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25º volume - Coleção Cadernos de Folclore

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COLEÇÃO CADERNOS DO FOLCLORE VOLUME 25º Medicina popular nas caatingas do Geopark Araripe Ceará UMA REVISÃO HISTÓRICO-RELIGIOSA DA ETNOFARMACOBOTÂNICA EM ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo Destaca-se no presente livro a parceria de Aristides de Arruda Camargo Neto, arquivista especializado em patrimônio cultural, responsável pelo levantamento da documentação primária e secundária junto à Cúria Diocesana do Crato – CE e aos arquivos das igrejas desta Diocese, pesquisa que representa contribuição de signi­ ficativa importância para a composição do presente livro. 10 IMPORTANTE FONTE DE PESQUISA SOBRE A CULTURA POPULAR BRASILEIRA 11 COLEÇÃO CONTRIBUI PARA PROPAGAR A DIVERSIDADE FOLCLÓRICA 12 AGRADECIMENTOS 15 PREFÁCIO 23 CARTA A MARIA THEREZA 26 INTRODUÇÃO 46 1 O CEARÁ NOS PRIMEIROS TEMPOS DE COLONIZAÇÃO 52 1.1 Apanhados históricos da religiosidade na região sul do Ceará 55 2 PADRES DA COMPANHIA DE JESUS NO SUL DO CEARÁ 58 2.1 Educação como proposta jesuítica 58 2.1.1 A criação dos colégios 60 2.1.2 O trabalho educacional dos jesuítas no Brasil 61 2.2 A formação das bibliotecas 65 2.2.1 O destino das bibliotecas após a expulsão dos jesuítas em 1759 66 2.3 A correspondência epistolar dos jesuítas e sua expansão 69 2.4 A Companhia de Jesus e a arte médica 70 2.4.1 Médicos judeus 73 2.5 Padre Anchieta (1534-1592) – o Galeno brasileiro 74 2.5.1 Depoimento médico de Anchieta 75 2.6 Padre José de Anchieta – primeiro naturalista no Brasil 81 2.6.1 Padre Anchieta é homenageado pelo botânico francês Saint-Hillaire 81 2.7 Padre José Rodrigues de Melo 90 2.7.1 Padre José Rodrigues de Melo e a cultura da mandioca 90 2.8 A expulsão dos jesuítas 93 3 REMINISCÊNCIAS JESUÍTICAS NA RELIGIOSIDADE DO POVO DO SERTÃO 93 3.1 Reminiscências jesuíticas 94 3.2 Sacramento do batismo 101 3.3 Penitências 106 3.4 Os jesuítas e as práticas devocionais 106 3.4.1 Devoção a Nossa Senhora 109 3.4.1.1 Nossa Senhora medianeira 110 3.4.1.2 Nossa Senhora em rezas para curar doenças 111 3.4.1.3 Rosário de Nossa Senhora 114 3.4.1.4 Nossa Senhora em auto de Padre Anchieta 116 3.5 Devoção ao Bom Jesus 120 3.5.1 Devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Bom Jesus em Portugal 121 3.5.1.1 Bom Jesus do Monte das Mós 122 3.5.2 Juntos, Bom Jesus e Padre Cícero em Juazeiro do Norte 124 3.6 Culto aos santos e às relíquias 128 3.7 Jesuítas em áreas do Geopark Araripe 132 4 PADRE IBIAPINA E PADRE CÍCERO, OS BALUARTES DA RELIGIOSIDADE CAZRIRIENSE 134 4.1 Padre Ibiapina 140 4.2 Padre Ibiapina enquanto evangelizador 143 4.3 Os milagres atribuídos a Padre Ibiapina 148 4.4 As doenças e os doentes no tempo de Padre Ibiapina 165 5 JUAZEIRO DO NORTE: CHÃO SAGRADO 166 5.1 Juazeiro do Norte 166 5.2 Juazeiro... Tu és a Jerusalém 168 5.3 As peregrinações no Ocidente 171 5.4 Carlos Magno na poesia dos trovadores nordestinos 172 5.4.1 O poema O bálsamo de Ferrabrás 173 5.4.1.1 As plantas na composição do Bálsamo de Ferrabrás 174 5.4.1.2 A espécie brasileira do gênero Kalanchoe 175 5.4.2 O Bálsamo de Ferrabraz em Leandro Gomes de Barros 178 5.5 Juazeiro – árvore sagrada 178 5.6 Padre Cícero em Juazeiro 182 5.6.1 As romarias a Juazeiro do Norte 184 5.6.2 O romeiro de Juazeiro do Norte 189 5.7 As curas mágico-religiosas 192 5.8 A eficácia simbólica em Claude Lévi-Strauss na interpretação de curas em contextos religiosos 193 5.9 Claude Lévi-Strauss, em Berner Spies 196 6 AS PLANTAS MEDICINAIS DA CAATINGA E A MEDICINA POPULAR 196 6.1 A caatinga propriamente dita 207 6.2 As espécies lenhosas na medicina do sertão 210 6.3 Metabolismo secundário das plantas de caatinga e as propriedades medicinais 212 6.3.1 Flavonoides 214 6.3.1.1 Os flavonoides nas espécies lenhosas das áreas de caatinga do Geopark Araripe 225 6.4 Investigações científicas sobre as plantas medicinais e interações medicamentosas 227 6.5 A medicina do cangaço 230 6.5.1 Pimenta malagueta 231 6.5.2 Fumo 233 6.5.3 Um rápido perfil do cangaço 235 6.5.4 Os autores pelas trilhas de Lampião e seu bando 236 7 OS ROMEIROS DE JUAZEIRO DO NORTE E AS CURAS MILAGROSAS EM UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR INTERPRETATIVA 238 7.1 Aspectos metodológicos da pesquisa 243 7.2 Os impulsos religiosos 245 7.3 O sentir-se doente e o sentir-se curado 246 7.4 Dois fatores que justificam o sentir-se curado 247 7.5 Ex-votos como testemunhos das curas 249 7.6 Dois mil anos separando os humores de Hipócrates e a homeostase de Claude Bernard 250 7.7 Os romeiros de Juazeiro do Norte e as curas milagrosas 157 FOTOGRAFIAS 251 FONTES DOCUMENTAIS PRIMÁRIAS 252 FONTES IMPRESSAS 254 BIBLIOGRAFIA 280 COLEÇÃO CADERNOS DE FOLCLORE IMPORTANTE FONTE DE PESQUISA SOBRE A CULTURA POPULAR BRASILEIRA O primeiro volume da Coleção Cadernos de Folclore foi publicado em 1986, um ano após a criação da Fundação Cultural Cassiano Ricardo. A coleção é reconhecida como uma das pri- meiras ações efetivas da instituição, por meio da então existente e recém-formada Comissão Municipal de Folclore. Nascia ali uma ferramenta valiosa de divulgação e propagação das dife- rentes manifestações folclóricas do Brasil e, particularmente, da região do Vale do Paraíba. A coleção ganhou ainda mais força com a criação do Museu do Folclore de São José dos Campos, em 1987, iniciativa que também foi capitaneada pela Comissão Municipal de Folclore, extinta em 1999. Naquele mesmo ano, foi criado o Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP), organização da sociedade civil que se tornou um importante parceiro da Fundação Cultural para dar continuidade à Coleção Cadernos de Folclore. Neste ano, a publicação chega ao seu 25º volume (Medicina popular das caatingas do Geopark Araripe – Ceará) –, novamente pelas mãos da competente professora, especialista na área de etnofarmacobotância e estudiosa da medicina popular, Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo, que em 2008 já havia contribuído com sua pesquisa e conhecimento, para o lan- çamento do 18º volume da coleção (O Milho e a Mandioca nas cozinhas brasileiras, segundo contam suas histórias). Sem medo de errar, é possível afirmar que, percorridos 33 anos e muitos assuntos aborda- dos, a Coleção Cadernos de Folclore se consolidou como uma importante fonte de pesquisa sobre a cultura popular brasileira. Uma publicação que está à disposição de qualquer inte- ressado na biblioteca do Museu do Folclore ou pela internet (no site www.museudofolclore. org), em PDF e e-book. Fundação Cultural Cassiano Ricrado 12 COLEÇÃO CONTRIBUI PARA PROPAGAR A DIVERSIDADE FOLCLÓRICA O Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP) tem a satisfação de apresentar ao público seu 25º volume da Coleção Cadernos de Folclore, que tem como título Medicina popular das caatingas do Geopark Araripe – Ceará, de autoria da professora Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo. A Coleção Cadernos de Folclore, publicada em parceria com a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, é fruto de pesquisas realizadas por estudiosos do folclore que trazem luz a temas relacionados à sabedoria popular, seus usos, costumes e crenças, entre tantas outras ver- tentes correlatas. É com esse espírito de seriedade científica, divulgação das tradições e respeito aos detentores do saber que este livro lança sua fundamental contribuição ao ideal da Coleção Cadernos de Folclore, que visa a divulgar e propagar a diversidade de nossas manifestações folclóricas. Nossa expectativa é de que a presente obra contribua para a divulgação regional da temática abordada, bem como sirva de fonte de referência para pesquisas futuras, assim como já aconteceu com os demais volumes publicados anteriormente, desde 1986. Ricardo Savastano Presidente do CECP 13 AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. Nivaldo Soares de Almeida, Diretor Executivo do GeoPark Araripe – UNESCO Global Geopark, pela concessão de autorização de uso de direito intelectual e de imagem para a publicação do presente livro: Medicina Popular das caatingas do Geopark Araripe. Uma revisão histórico-religiosa na Etnofarmacobotânica em abor- dagem interdisciplinar. Ao Padre Francisco Roserlândio de Souza, Diretor do Departamento Histórico da Cúria Diocesana do Crato (CE), nossos sinceros agradecimentos por disponibilizar para consulta os documentos do arquivo, os quais nos possibilitaram a organização temática do presente livro. À Profa. Dra. Maria Arlene Pessoa da Silva, Pró-Reitora de Extensão e Diretora do “Herbário Dárdamo Andrade Lima” da Universidade Regional do Cariri – URCA, e sua equipe pela preciosa colaboração prestada com relação à revisão taxonômica do material botânico representado no presente livro. À Maria do Carmo Vendramini, amiga e companheira de muitos anos de pesqui- 14 Agradecimentos sas de campo e bibliográfica de assuntos de nossos interesses, considerando-a no campo da etnomusicologia. Recordo os valiosos livros com os quais gentilmente me presenteou, dos quais venho me servindo na elaboração de meus escritos. Destaco, ainda, sua importante contribuição ao presente livro ao ceder dados de seu acervo parti­cular, concernente ao tópico referente aos penitentes tratado na Parte 3 desta obra. Meu profundo agradecimento à geógrafa Maria Araujo Ferrer, do Instituto Chico Mendes – Flora Araripe Apodi, profunda conhecedora da área pesquisada, a qual vem me assessorando quando de minhas andanças pelas caatingas, favorecendo, sobretudo, o contato com informantes. Enfim, meu mais profundo agradecimento aos professores amigos da URCA e de fora dela, sobretudo as benzedeiras, os informantes, os vendedores de plan- tas medici­nais dos mercados e feiras livres das cidades que compõem o Geopark Araripe. A todos eles, com os quais contatei por esses quase 20 anos de andanças por essas paragens, recebendo-me com muito carinho, como é peculiar do povo caririense. À minha secretária Ana Lúcia Porfírio Lima Araújo, a qual, com muita eficiên- cia vem há muitos anos no comando de minha vida doméstica, permitindo, assim, minha dedicação plena aos meus escritos. Ao meu filho mais velho, Aristides, o meu muitíssimo obrigada pelas pesquisas desenvolvidas junto aos arquivos da Cúria Diocesana do Crato no levantamento da documentação exposta no presente livro. Ao meu terceiro filho, Mário, por acompanhar-me ao Ceará, nestes últimos anos, meu agradecimento pelo suporte técnico no campo das tiragens fotográficas acompanhando-me pelas áreas das caatingas percorridas. Ao Carlos Avelino, filho caçula, sempre muito próximo ao meu cotidiano, animando na execução de meus escritos. Ao meu quarto filho, João Paulo, e minha nora, Diana, os quais, embora mais distantes, tenho em meu coração. Agradecimentos 15 Ofereço este livro aos meus irmãos Fernando e Carlos Alberto e sua esposa Clara. 16 PREFÁCIO É com grande alegria, mas também responsabilidade, que atendo ao chamado de prefaciar este livro de Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo e Aristides de Arruda Camargo Neto. É clara a minha preocupação para interpretar a extensa obra e o legado de Maria Thereza, pesquisadora consagrada no trabalho pioneiro dos estudos antropológicos, de Etnofarmacobotânica, de medicina popular, de plantas medicinais e também de plantas medicinais utilizadas em rituais religiosos afro-brasileiros. Por isso, acredito que me saio melhor quando utilizo o caminho que venho tri­ lhando com a sociologia e antropologia da medicina e da saúde para destacar em foco os estudos de medicina popular propostos no livro. Também focalizo o meu interesse em perscrutar esse tema para, quem sabe – em meu ofício de sociólogo, antropólogo e filósofo em uma faculdade de medicina –, introduzir uma arquitetura, ou apenas um desenho ou esboço de linha de pesquisa de medicina popular no ambiente acadêmico. Prefácio 17 Para além da popularização da cultura popular, a medicina popular é um tema político e atual. Entendo que a desvalorização da medicina popular ao longo do século XX é uma estratégia pedagógica e de poder frente à produção e ao uso bem-sucedido das biotecnologias médicas na prática da saúde da população. Uma vez consolidado no campo científico por meio de um longo processo de interdisciplinaridade entre as ciências da vida e as ciências da saúde, o progresso científico em medicina caminha de modo pragmático, seja para o controle das epidemias com atuação em saúde pública, seja com o profissional da saúde no cuidado com seres humanos. Utilizar a medicina popular como área de conhecimento, abdicando dos avanços da biomedicina e do uso que se faz das biotecnologias médicas para o tratamento de doenças, aparece como incoerência na atuação do profissional e gestores da saúde. Em outras palavras, falar de medicina popular no ambiente profissional e acadêmico no Brasil é algo que incomoda. Transforma-se em uma ameaça ao movimento do progresso científico da medicina e também ameaça à legitimidade do profissional da saúde. É certo que os estudos interdisciplinares da medicina com as ciências humanas têm longa tradição no Brasil. Desde as primeiras formulações de uma medicina legal com Nina Rodrigues no século XIX até a antropologia de Roger Bastide nos inícios século XX, as questões religiosas sempre estiveram na ordem do campo científico nascente da medicina e das ciências humanas. A neurologia ainda nada produzia na época. Na medida em que as biotecnologias avançam, por exemplo, com a matematização proposta pela bioquímica nos anos de 1900 e mais tarde com a genética dos anos de 1950, avança em consistência a abordagem mecanicista da medicina. Os Prêmios Nobel em medicina desde o início do século XX atestam o papel histórico do poder simbólico das descobertas científicas em circulação, dei­ xando marcas para o consumo legítimo de bens da medicina tecnicista vencedora, contraface à medicina popular, que foi sendo deixada para o passado sem sentido, 18 Prefácio perdedora em eficiência e eficácia, e, portanto, mais bem adequada ficou na identificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que a nomeou com o eufemismo de “medicina tradicional”. Defendemos que a denominação “medicina popular” se encontra criticamente no campo simbólico da saúde. E é com essa denominação que surgem os parâme­ tros para a circulação de bens simbólicos das práticas de cura em geral no campo da saúde. A medicina popular tende a perder força política no campo da saúde, porém não se permite a sua extinção. Caminham juntas as abordagens vitalistas do passado que sequer remetem-se ao passado remoto. Mas também é correto afirmar que as abordagens vitalistas têm longa tradição, principalmente quando deslocamos o olhar para as práticas de cura dos países do Oriente, somadas às medicinas homeopática e antroposófica do Ocidente, entre outras, podemos cons­ tatar uma vitalidade da abordagem vitalista na prática médica. Insistindo nos pressupostos: a medicina popular no Brasil está situada desde então em um campo simbólico, que a coloca em um passado remoto. Podemos pensar de modo metafórico tal situação associando-a a uma moeda, que possui duas faces, que se nos apresentam necessária para sua concretude, para sua concreta circulação na sociedade: as medicinas populares e as medicinas oficiais acadêmicas compreendem esses dois lados da mesma moeda, que circulam enquanto práticas médicas e de saúde em um mercado de bens simbólicos e perfazem o valor comunicativo e contratual entre os membros da sociedade. A interlocução ocorre em função do que está dado na própria moeda em circulação: práticas de cura. Nessa economia simbólica sugere-se também a circulação de outra moeda paralela, como aquelas que circulam somente entre o banco central e os bancos privados de um país. Ou seja, em associação, tal moeda circularia somente no campo da ciência, entre cientistas nestas duas faces: numa a abordagem mecanicista (representada pelo avanço da biologia, da bioquímica e da farmacologia); noutra Prefácio 19 a abordagem vitalista (representada pelo conhecimento das forças vitais atuantes no corpo humano); ambas concorrendo para a hegemonia das pesquisas médicas e seus produtos no mercado do campo da saúde. Esses aspectos do campo simbólico da saúde interessam à sociologia e antropologia da saúde que realizamos na faculdade de medicina. Percebemos que, no movimento de circulação dessas moedas (metafóricas), havendo tendência em anulação de uma das faces em detrimento da outra, nesse embate e tensão (aparente) a medicina em geral perde seu poder de legitimidade. Resta o momento ético que indica resoluções por dilemas. Isso não quer dizer que há incoerências e inconsistências nas teorias médicas em pleno progresso científico. Ao contrário, nessas condições dadas, há essa economia simbólica que joga com uma estrutura simbólica: pouca circulação de outras práticas cura, muita concentração de capital intelectual para a pesquisa médica e restrita distribuição de poder médico, resultando na me­­di­calização da sociedade. Decorre dessa situação biopolítica um desequilíbrio da gestão e controle quando se tem um grande sistema para administrar, como é o caso do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. A criação, em 2013, de uma estratégia política comprova essa assertiva: o lançamento da política nacional de humanização. Vislumbro no trabalho de Maria Thereza e Aristides Camargo um conjunto de bens simbólicos circulantes para somar a questão da humanização no campo da saúde. ... Nesse contexto, toda obra de Maria Thereza coloca à vista uma interlocução necessária que desmistifica, em meio aos avanços biotecnológicos da biomedicina, a medicina popular no campo científico da medicina. Neste livro, Maria Thereza e Aristides Camargo trazem um novo cenário e desafio: há uma forma de interlocução 20 Prefácio com as ciências humanas que permite melhor diálogo entre a sociologia da religião e as neurociências, levantando possibilidades de frutíferas relações epistemológicas, que podem e devem ser atualizadas por fontes de pesquisa e estudos interdisciplinares. A proposta interdisciplinar está assim bem situada no argumento do livro: o sentir-se doente e o sentir-se curado por parte do religioso romeiro, que segue em romaria para a cidade de Juazeiro do Norte a fim de render graças a Padre Cícero pela cura alcançada, coloca-se como um protótipo da pesquisa em medicina popular. Maria Thereza e Aristides Camargo apresentam a figura do romeiro como principal interlocutor do campo simbólico da saúde, cujo bem simbólico, a cura milagrosa, é explicada no campo da saúde pelo aspecto psicossocial da saúde e doença. No laboratório do Geopark Araripe (região protegida pela Unesco), onde ocorrem as romarias de milhões de pessoas anualmente rumando para a cura religiosa, o cenário é próprio para o olhar sociológico: aparecem com maior precisão deta­ lhes da espiritualidade e da religiosidade entre os andarilhos, objeto preciso para o estudo interdisciplinar de uma outra medicina popular. Quem sabe ali circule um bem simbólico híbrido: o “médico popular”? Importa, no entanto, registrar o empreendimento científico dos autores, que partem de elementos historiográficos, buscando em fonte primária dos arquivos locais o resgate histórico do habitus (no conceito de Pierre Bourdieu) do campo da saúde local, com a finalidade de dar entendimento ao leitor do significado das roma­rias e dos romeiros que receberam curas milagrosas. Mas, também, coloca à prova toda experiência adquirida por Maria Thereza ao longo de sua vida acadêmica nos estudos e pesquisa etnológicas in loco sobre Etnofarmacobotânica na região: o uso de plantas medicinais complementa a aventura antropológica. Dois caminhos epistemológicos se apresentam: ou 1) compreendemos o papel crítico que exerce a medicina popular como área concentrada de conhecimento no campo científico Prefácio 21 da medicina – que de fato ainda é pouco explorada no contexto das faculdades de medicina – e/ou 2) compreendemos que os autores oferecem uma alternativa ao campo simbólico da saúde, para além da força objetiva dos produtos industrializados e suas biotecnologias, as plantas medicinais encerram valor simbólico, creditado a favor da política nacional de humanização. No p
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