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11 Laurence Fontaine1

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Texto sobre pobreza
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  DOI : 10.20509/TEM󰀭1980󰀭542X2016v224011 Tempo (Niterói, online) | Vol. 22 n. 40. p. 425󰀭438, mai-ago., 2016  | CONFERÊNCIA [1]   Diretora de pesquisa do Centre Nacional de la Recherche Scienti󰁦ique (CNRS) – Paris – França. E-mail  : laurence.fontaine@ehess.fr[2] Trata-se de “pobre gente mecânica e de labor”, de “pobre gente de fome e de pobreza”, “pobres e lastimosas pessoas”. Mollat, 1978, p. 311󰀭312. [3] Condorcet,  Sur les assemblées provinciales , 1788, p. 453, citado por Hufton, 1974, p. 19.  Pobreza, crédito e redes sociais na Europa  pré-industrial  Poverty, credit and social networks in pre-industrial EuropePauvreté, crédit et réseaux sociaux en Europe préindustriellePobreza, crédito y redes sociales en Europa pre-industrial Laurence Fontaine [1] P ara entender o papel do crédito na Europa moderna, escolhemos um olhar a partir dos pobres, já que a primeira demanda de quem empo-brece, tanto no presente como no passado, é solicitar crédito e prazos para pagamento (Fontaine, 2008). Entretanto, antes de entrar nas estratégias das famílias, a primeira questão que se coloca é saber como eram definidos e se definiam os pobres.Na idade média, os textos literários bem como os pregadores, os cronistas ou a linguagem administrativa chamavam de pobres, de forma usual, aque-les que viviam do seu trabalho. O sentido da palavra não é só econômico: o pobre é aquele que padece, que está na infelicidade. 2  No final do século XVII, o dicionário de Furetière definia a pobreza como a “falta de bem, de fortuna” (Furetière, 1690). De fato, todas as definições dos homens políticos da época, e, em particular, na famosa análise de Vauban – Projeto de uma dízima real –,  de 1707, insistiam no fato de que pobre é aquele que, possuindo tão somen-te seu trabalho, está suscetível se, por um motivo qualquer, não puder mais trabalhar. No final do século XVIII, em 1788, Condorcet confirmava a mesma percepção, definindo o pobre como “aquele que não possui nem bens nem mobília e que está fadado a cair na miséria ao mínimo acidente”. 3  Essas defi-nições eruditas encontram-se com aquelas dos pobres falando de si: os mo-radores da Roma do século XVII diziam-se pobres quando somente tinham o seu trabalho para subsistir (Ago, 1998, p. 82-89). Aliás, a época moderna utili-zou outros termos, os de indigente ou de mendigo, para designar aqueles que caíram na pobreza (Gutton, 1971, p. 8-10). A pobreza era tanto um processo potencial quanto um estado, o que quer dizer que para compreendê-la, é pre-ciso não somente estudar os mecanismos de empobrecimento, mas também o que os indivíduos podem fazer para minimizar os riscos, para frear e retar-dar a degradação de suas condições nos períodos de crise.  426   426 Os historiadores não se deixaram enganar, mas, curiosamente, raramen-te se interessaram pelos meios que permitiam aos indivíduos resistir e, em particular, ao modo como eles podiam utilizar os mecanismos financeiros. Olhar o que diz a historiografia da pobreza mostra quanto as questões dos historiadores são filhas de seu tempo. Encabeçando os temas mais abordados pela historiografia estão as maneiras como a sociedade tratava seus pobres. A caridade privada e as instituições caritativas foram os aspectos que durante um longo tempo receberam maior atenção. Mais recentemente, os historia-dores têm trabalhado em uma dupla direção: de um lado, pensar o fenômeno na sua dimensão política e seguir a questão social (Proccacci, 1993; Castel, 1995), de outro lado, optar por uma perspectiva mais dinâmica e mais indivi-dual e não mais se contentar com o ponto de vista do rico que dava esmola e criava instituições, mas adotar também o ponto de vista do pobre que tenta combater os mecanismos de empobrecimento.Nessa segunda direção, estudar os ciclos de vida e de que maneiras os po-bres utilizaram as instituições foram inicialmente privilegiados (Henderson & Wall, 1994; Lombardi, 1988; Woolf, 1986; Jütte, 1994; Carbonell i Esteller, 1997), depois complementados por uma teoria da “economia dos expedien-tes” ( economy of makeshift  ) que insistia sobre as estratégias desviantes – rou-bo, contrabando, prostituição, abandono de crianças, etc. – utilizadas para garantir a sobrevivência (Hufton, 1974). Hoje em dia, há mais interesse em se compreender não somente os meios criminosos, esses que os arquivos ju-diciários mostram, mas também os aspectos mais positivos, ou seja, como os pobres criavam estratégias econômicas para prevenir a miséria e mobi-lizavam as redes sociais para lutar contra as lógicas do empobrecimento (Fontaine & Schlumbohm, 2000). Contudo, são raras as fontes que falam dos pobres e de seus modos de viver. 4 Se o balanço dessa historiografia é notável na riqueza e na diversidade,  vale, entretanto, sublinhar quanto ela tem, no conjunto, dedicado pouca atenção aos mecanismos financeiros e às redes sociais. De fato, na análise das relações entre ricos e pobres, os estudos se limitam tão somente às manifes-tações da caridade, ainda que todas salientem o papel da patronagem e sub-linhem o quanto a sociedade antiga se fundamentava nas relações interpes-soais. E, de fato, o contraste entre o pobre e o vagabundo é, ao longo do antigo regime, o que determina o estabelecimento das fronteiras sociais da comuni-dade. Na idade média, tolerava-se o mendigo e odiava-se o vagabundo. O va-gabundo era o “sem confissão”, aquele que não tinha ninguém para testemu-nhar a seu favor, que não tinha nenhum laço social, e para existir socialmente era fundamental ter alguém que respondesse por você. Não ser reconhecido 4   Stuart Woolf (1986, p. 20) menciona esses mecanismos informais de defesa, sublinhando quanto a documentação não permite de se aproximar deles e Robert Jütte (1994, cap. 4) dedica a eles um capítulo geral. Montserrat Carbonell i Esteller (1997, p. 161󰀭168) reencontrou os laços familiares dos assistidos da Santa Casa de Barcelona no último terço do século XVIII.  427 por ninguém, não poder se confessar ligado a ninguém é o signo do isolamen-to e da rejeição social. 5 Podemos adiantar as várias razões para justificar a pouca atenção dada pelos historiadores às redes sociais que protegiam os homens do destino, dos “sem confissão”   (vagabundos). Mencionarei duas: a primeira remete à historiografia que foi por muito tempo filha do “Estado de bem-estar social” ( Welfare State  ) e das três décadas gloriosas (1940-1970). Os historiadores se dedicaram sobretudo a entender a genealogia das proteções sociais e colo-caram o trabalho no centro de seus questionamentos. Quando esses sistemas de proteção começaram a ruir, os historiadores – e os anglo-saxões foram os primeiros, nos anos 1990, a se preocuparem com isso – interessaram-se en-tão pela autoajuda ( self help ), o modo pelo qual os pobres, em um contexto de trabalho irregular, conseguiam se livrar dos apuros sem os auxílios públicos (Horden & Smith, 1998; Hindle, 2004). A segunda razão reside no lugar que os historiadores atribuíram à eco-nomia na reflexão histórica. De fato, as análises do empobrecimento foram escritas majoritariamente nos anos 1960 e 1970 e se restrigiam, como aliás a grande maioria dos trabalhos históricos da época, a uma causalidade unica-mente econômica: os sistemas políticos, sociais e culturais não eram então considerados. A sociedade era descrita como clientelista mas essa qualidade não tinha influência sobre as explicações da pobreza. O social e político so-mente são reintroduzidos para explicar como os ricos selecionavam seus po-bres por meio da patronagem, da proteção e da mediação, colocando assim em evidência a posição social e política do benfeitor. Eles são também rein-troduzidos para mostrar como as instituições caritativas pretendiam inculcar os valores deferentes de submissão que as elites esperavam dos grupos me-nos afortunados (Woolf, 1986, p. 27). Essa desconexão impede de se trabalhar sobre os processos sociais e culturais de exclusão social.O endividamento é sempre mencionado como um dos mecanismos do empobrecimento, mas, outro traço que une o conjunto da historiografia, o cré-dito, é considerado como um mecanismo econômico global cujos resultados os historiadores se utilizam a longo prazo. As análises referem-se à ascensão da burguesia que soube aproveitar do endividamento aristocrático e campo-nês. Mesmo se o estudo dos pobres pode ser conduzido de forma microscópi-ca seguindo os casos individuais, a economia permanece um fenômeno ma-croscópico nesses estudos, um elemento externo sobre o qual os indivíduos não tinham alcance. A ênfase posta sobre as evoluções longas e a crença que o econômico é um campo autônomo regido por uma racionalidade própria não 5   Mollat, 1978, p. 299. Para Jean-Pierre Gutton e Robert Castel, as de󰁦inições do vagabundo são estabelecidas mais tardiamente. O termo de vagabundo de󰁦ine-se progressivamente entre os séculos XVI e XVIII: de aquele que vagueia sem domicílio, passa-se, em 1666, àquele que não somente é pobre (sem pro󰁦issão, sem bens para subsistir), mas além disso é vagabundo mesmo (Gutton, 1971, p. 9󰀭13; Castel, 1995, p. 90󰀭97). Gutton cita a carta, endereçada a uma lavadeira instalada em Lyon, feita por uma empregada que deixou a cidade e se encontrava em Grenoble e não conseguia obter a colocação que lhe haviam proposto porque não havia ninguém na cidade que pudesse responder por ela. Ela pede para sua amiga lavadeira encontrar sua antiga patroa e suplicar-lhe “um certi󰁦icado de serviço e de 󰁦idelidade” (p.82).  428   428 permitiu ver o quanto as relações econômicas eram também relações sociais e culturais. Daí um déficit de análises individuais que permitiriam seguir os efeitos dos laços de crédito mais perto dos diferentes grupos sociais e de se perguntar se todos os credores, fossem eles nobres, burgueses ou campone-ses, tinham as mesmas práticas. Em suma, os historiadores privilegiaram so-bre essa questão, as análises macro, constatando transformações estruturais da sociedade, mas não viram como essas transformações agiram no nível in-dividual, impossibilitando-se assim de se compreender a diversidade das lin-guagens e das práticas. Apesar do superendividamento ser uma das primeiras manifestações da pobreza, a historiografia quase não se interessou por ele, privilegiando a assistência e a caridade. Dessa forma, ela se colocou do ponto de vista do Estado e das elites. Somente muito recentemente os pobres foram colocados no centro das pesquisas sobre a pobreza e foram levadas em consi-deração as maneiras pelas quais eles podiam pensar, prever e se organizar nas diversas crises que os ameaçaram e os atingiram. De fato, a pobreza sempre foi pensada como um estado enquanto ela é um risco, o que as definições da época dizem aliás muito bem.Para compreender bem a amplitude das estratégias que cada um pode-ria utilizar, é útil analisar os elementos que entram nas economias populares bem-sucedidas. Graças aos arquivos familiares conservados, pode-se acom-panhar a maneira pela qual uma família de uma pequena cidade do sudoes-te da Alemanha, entre 1738 e 1827, atravessou crises econômicas e até mes-mo o incêndio que destruiu sua casa. Ernst Jacob Vayhinger, um tecelão de lã ( zeugmacher  ) que viveu entre 1729 e 1791 e escreveu uma crônica entre 1756 e 1784, será nosso exemplo (Frey Jr., 2000. p.115-135). Ernst casou-se aos 25 anos e como presente de casamento, seus pais lhe ofereceram um tear. Dedicou-se à atividade, endividou-se para comprar uma parte da casa de seus pais; paralelamente, alugou pedaços de terra pertencente à cidade cuja cultu-ra o permitiu tornar-se um ativo horticultor e acrescentar alguns campos para o cultivo de cevada e batatas inglesas. Finalmente, criou pássaros: primeiro, pombos e, nos anos difíceis de 1764 e 1766, começou a criar canários. É graças a essa entrada no mercado de luxo – pois a burguesia se apegou a esses pás-saros exóticos – que conseguiu atravessar os anos de fome quando os preços dos produtos agrícolas subiram consideravelmente e a fome espreitava. er um pé no mercado de grãos o ajudou a resistir à carestia, mas a venda dos ca-nários foi essencial para atravessar esses anos e, em 1772, representava quase a quarta parte dos ganhos anuais. Alguns anos mais tarde, conseguiu com-prar a prazo a parte baixa da casa, que alugou até que um incêndio destruiu o bairro em 1782. Ernst se queixou dos prejuízos do incêndio e da dificuldade de reconstruir o térreo e não falou mais em locatários. Antes de morrer, tentou pagar suas próprias dívidas e receber de quem lhe devia para livrar sua des-cendência desses laços.Essa economia mostra certos aspectos fundamentais das estratégias popu-lares: a diversificação de atividade e a utilização do mercado. A diversificação

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Apr 28, 2018

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